domingo, 9 de novembro de 2008

A Geração da Negligência

"Não é a estória que fascina mas a alma que está nela".

Seremos lembrados pela história como a geração da negligência.
Não lutamos. E portanto há tantas causas, que passam de lado, esbarram em nossos ombros, nos esbofeteiam e mesmo assim, nós pedimos desculpas. Apenas para seguir em frente. Apesar dos pesares.
"Apesar de você". Não há mais Chicos Buarques, não há mais Caetanos Velosos.
Há o Comando Vermelho que grita em música e rimas suas ideologias. Sem julgamentos. Ideologia...eu quero uma para viver. A minha geração não tem ideologias.
Atos Insitucionais ninguém mais sabe o que é...atos inconstituicionais...há tantos, todo os dias, impregnando o ar que respiramos de um cheiro mórbido de desleixo, incúria, deixado por seres irresolutos e alienados, que somos todos nós.
Vem, vamos embora...que esperar não é saber. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.
Nós somos inércia. O torpor tóxico desse mundo absurdamente rápido, onde as pessoas robotizadas esqueceram-se do mais simples dos sentimentos: amor. Amor ao próximo.
Hoje...que morram em dezenas, de fome e de sede. Não se precisa calar a imprensa: nós calamos a nós mesmos, e ainda que se estampem em todos os painéis e outdoors, não precisa furar nossos olhos, nem prender-nos nas prisões...nós não queremos enxergar a verdade.
Não haverá mais repressões, porque não há o que coibir, não refrearemos...
Não haverá mais torturas, porque somos covardes demais para lutarmos por uma causa que não seja a nossa própria.
Nós, mais escravos do sistema do que jamais, mais sujeitos às regras do que nunca, robóticos como nem mesmo Isaac Asimov imaginou, pensamos que vivemos em liberdade.
Liberto está o espírito que não sucumbe ao sistema e entende que o sublime da vida é ser parte da humanidade, e portanto, nunca, nunca, deixar de lutar por ela...

domingo, 26 de outubro de 2008

O Coelho de Alice




Rápido. As pessoas estão te seguindo.
Não há tempo para ser você mesmo.
Há opiniões para seguir. Rápido.
Você tem que escolher um caminho.
Já escolheram um para você.
Não vire à esquerda. Podem haver suspeitas sobre as suas visões políticas.Tampouco à direita. Pode ser fascista demais.
Sorria. Enigmático. O gato de Alice no País das Maravilhas.
Rápido, não há tempo, dizia o coelho de Lewis Carroll.
Estamos todos atrasados. Anacrônicos.
Hoje já não é mais. Já não está mais na moda, já não causa frissons.
Corra. Você precisa chegar. Acima de quem está atrás, perto do topo, perto do apogeu.
Apologia ao mais alto, ao melhor, ao mais foda de todos.
A Queda. Do apogeu. O definhamento de Narciso.
O reflexo do espelho, o reflexo, de quem é? Quem você espelha, se espelharia também em você?
No côncavo do espelho, não há mais tempo de refletir...nem a imagem, nem sobre o pensamento.
Agora pare. Do que você está correndo? Atrás de quem? Se você se visse como personagem de um filme...acha que alguém correria com você?

Cronologia: o tratado do tempo.
Ninguém o assinou.

quinta-feira, 29 de maio de 2008


Impassível, o coração já se recusava a sentir qualquer emoção. Resignava-se a ficar em seu canto, lambendo suas feridas. Não precisava de outras mais. Já havia suficientes.
Os olhos da menina não brilhavam mais. Eram olhos líquidos, esvaídos de tantas desesperanças. Eram olhos que já não queriam. Olhos de chuva, de tempestades intermináveis, de quem se cansou de nunca achar um horizonte.
Mãos de dor. Mágoa da vida, de calejar os dedos para só ver sofrer a alma. Não precisava mais. Mãos secas, áridas, como todo o resto do seu ser. Mãos que já não escreviam mais. Calaram as palavras no meio da sentença.
Alma de prisioneiro. De quem quer fugir sem saber para onde. Abriram-se os portões e já não se sabe se quer partir. Ficar é renegar os sonhos, partir é se enganar. Melhor não agir.
Melhor se matar, melhor fugir pra outra dimensão. Melhor esquecer a mediocridade dos seres humanos, melhor esquecer esse mundo sujo, melhor não ter mais sangue correndo nas veias, mas vento correndo na alma. Melhor é se libertar.
Olhar do alto e não ver mais nada, deixar a distância consumir os sentimentos até não existir mais nada. Olhar do alto e envolver-se no vácuo, olhar o vazio e esgotar a alma, até tudo tornar-se tão ínfimo, tão insignificante.
Quero ir embora desse mundo e de seus vícios. Quero deixar de ser estrangeira em meu próprio país. Quero que o mundo me absorva, me regurgite para outra dimensão, me exclua de seus limites e me envie para o país onde não se abre os olhos.
Onde só acordam os pensamentos, não mais o corpo, não mais o noticiário, não mais sóis, não mais luas.
Já saturei-me das poesias de Vinícius de Moraes. Já forcei demasiados risos, já não sei mais fingir. Quero ir para o país onde não se abre os olhos.

domingo, 25 de maio de 2008

Homenagem




Nos dias 15 e 24 de fevereiro, nasceram, respectivamente, Apoena Meireles e Denise Maldi, meus pais. Uma homenagem a saudade que tenho deles....

Não sei quando foi a última vez que te vi. Já se passou tanto tempo, ou talvez não se tenha passado tanto tempo assim.
Mas a minha saudade é tão maior que o tempo.
E desde quando se mede a saudade? Saudade é dessas coisas incomensuráveis, quase onipotente, que sufoca a alma e cala a garganta. Saudade não é sentimento, é estado de espírito, é o desejo do impossível, é desafiar o tempo e ainda assim, querer ganhar a batalha.
O tempo não é nada diante da minha saudade. Minha dor transpassa a temporalidade humana, cruza dimensões, rasga o peito e faz sangrar a alma. A minha dor está enterrada em mim tão profundamente que hoje é quase minha própria essência.
E eu choro. E todas essas lágrimas doídas, arrancadas de dentro, esscorrendo do âmago, embora líquidas, arranham e corroem meu corpo em todo o seu percurso.
O que mais dói em mim não é o que existe, mas o que ja não é mais. É a ausência. O vácuo, o vão, o intervalo, a inexistência. E como se o ausente fosse hoje o que há de mais presente na minha vida.
A saudade do que já se foi, do que já não é mais, mas principalmente do que poderia haver sido. Atemporal, a saudade faz fazer faltar os momentos que nem vieram a existir.
Meu olhar é melancólico. Meu olhar é impassível e só sucumbe à própria dor. Todo o resto lhe é um pouco, digamos assim, é insosso.
É que as vezes a alma se torna insípida. Mas tem que lutar, não é? Somos condicionados à luta, mesmo sem saber o porquê. Sem garantia de recompensa, sem certeza da glória, a luta. Não se pode esmorecer, pois não há derrota sem luta. Até entregar-se se faz após a luta interna de se convencer a fazê-lo. Já que a luta é inexorável, resta então saber pelo que lutar.
E apesar dos pesares, apesar das angústias, há algo lá dentro que não quer me deixar. É o velho espírito do guerreiro. Sâo essas imagens mal cronometradas, distorcidas e impregnadas no íntimo do meu ser que não me deixam abater. Dentro de mim, vive o espírito do guerreiro. E da grande guerreira que foi o grande amor da vida dele. E eu sigo vivendo, pelo amor dos meus pais.


Pseudônimos de mim


Regressarei ao início do caminho.
Não sei que deus, mas um deles quer assim.

No regresso ao início, quantos fins terei de viver…
Quantos sonhos eu suicidei, quantos impérios derrotei?
Abandonei histórias, improvisei recomeços,
Apaguei páginas inteiras e reescrevi minhas trajetórias.

Impulsivamente, é para o início que eu quero regressar…
Onde plantaram minhas raízes, onde é o meu lugar.
Quero me arrepender do que não foi feito, do engano rarefeito…
Pois os erros no meu peito, têm esperanças de voltar.

Quero o verde do meu olhar se confundindo com o da tua bandeira
O que arrancaram de mim, o que hoje aduba tua terra
O meu sangue, hoje é teu sangue
A minha origem que nas tuas entranhas se encerra
Quero estar de novo em teu ventre, preciso de ti para me amar…

domingo, 13 de abril de 2008

Silêncio na sala ao lado


Silêncio na sala ao lado. Apenas uma respiração apreensiva rompia o vácuo do momento. Absolutamente vazio. O ar, os pensamentos, a cabeça, o pulmão.
Adeus. Não pulsam mais as veias, não latejam mais as lágrimas. Entregue, expulso. De quem ? Pra quem ? A Deus.
Deram o sinal. Fecharam-se as portas. Abriram-se os prantos. Dos olhos, feito torneira aberta, que esqueceram de fechar. Escorreu. Foi-se o chôro, foi-se o sangue, foi-se o tempo. Um atrás do outro, metodicamente, na marcação da ampulheta : chôro, sangue, tempo, chôro, sangue, tempo…Gotejando, vertendo em fios dolorosos, secando os sonhos e os desejos. Agora há um deserto.
Tempo. O tempo passa, as horas passam. Arrastando-se, pesadamente como um jesus e sua cruz, marca a alma de dor, derruba os lastros e enfarda as almas. O tempo passa, mas a dor não passa.
Lutar. Lutar por um dever. Lutar para viver.
A carne, quando cortada, sangra. A veia, quando arrebenta, inércia. O coração, quando transborda, chora. O corpo, quando desiste, a alma não esmorece.
Fugir. Fugir de mim, fugir daqui. Perder o eixo, perder o rumo, peitar o destino.
Vida sem ideal não é vida. É subvida, é vergonha de vida. É insubsistência.
Vida, quando perdida, vive de saudades. Vive de lembrar, e depois chora.
Imunda, cada lágrima. Inunda, chora e lava a alma. Lava os olhos sujos de sangue. Lava as mãos da guerra, lava a boca profana.
Não há sobra de mais nada para cantar. Não há nenhum sonho para aspirar. Silêncio na sala ao lado…A morte me visitou e morreu tudo dentro de mim…

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Fugaz? Filosofia?

Fugaz: etimologia: Do latim "fugax","ácis" (que foge facilmente, fugiente, fugitivo; transitório, passageiro)

Filosofia: (do grego Φιλοσοφία: philia - amor, amizade + sophia - sabedoria)



Sabedoria passageira, em um mundo onde mesmo a velocidade da luz parece devagar. O conhecimento tornou-se um acessório. Ou melhor, é necessário conhecer de tudo um pouco, do todo ao quase nada de qualquer assunto. É preciso articular sobre opiniões quase copiadas dos jornais, plagiar sites e revistas, mas é preciso estar informado. É preciso saber de tudo o que nos circunda, cercar-nos de opiniões e assuntos exóticos, rasos ou vagos. É preciso ter nos lábios a palavra da moda, o assunto do dia, a última cotação da bolsa, o último escândalo do governo (este assunto, admito, apenas para os que tem realmente tempo de atualizar-se com uma freqüência quase atroz).
Temos de falar de tudo para não falarmos de nós. Falemos do que beira na superfície, do que bóia no nosso âmago, não do que se aprofunda nele. Sejamos fugazes em nossas filosofias, pois mergulhos profundos dentro da alma, poucos ainda conseguem dar. É mais fácil esconder-se em meio às mazelas do mundo do que descobertar as suas próprias. Não que elas sejam mais ou menos doídas do que as dos outros. São apenas nossas. Deixemos pois, de sermos fugazes, exilados de nossa própria alma: sejamos mais íntegros, sinceros e profundos, pois de efêmera e transitória, basta a vida...