domingo, 11 de setembro de 2022

 


Primeiro pensei em fazer-te  poesia. Mas não estou certa que palavras consigam recitar em rimas o que o coração tenta expressar. Serei prosa, portanto: menos rígida e mais farta.

Quase tão extensa como nuvem no teu céu quando resolve te molhar. Como teus marrons de matizes amazônicas, por onde se demora o teu olhar.

Olhos que ora tendem ao negro das tuas águas, ora ao granadino dos frutos que insistem em ti boiar. Olhos que se encerram ao entardecer. Quando tuas cores confundem-se com o dia, que à minha revelia, insiste em se esconder.

Quando se põe o sol e se vai tua morenice,  ou onde começa a escuridão do breu. O que foi um brilho súbito, ou esperança que morreu.

Quando segundos se eternizam no calor de um abraço, ou quando o sangue insiste em correr mais rápido do que as veias conseguem suportar.

É nesse momento que sua passividade vem incólume me acalmar. Não haverá ontem, talvez nem mesmo amanhã. Não haverá arrependimentos porque não houveram tropeços.

Sentimentos trôpegos não costumam ir muito além. Mas eu costumo desafiar o tempo, e quem sabe, é porque me convém.

Mas um dia veio você e eu não soube como lidar. Confundiu-me os sentimentos e as cores...me fez ansiar desejos e sabores. Não quero os que já experimentei – quero os que tua boca revelar.

Quero gosto de fruta não mordida. Por mim descoberta, ainda que proibida. Teu gosto arrebatador ou um adeus ameno, tua fertilidade ou teu veneno. Apenas me deixe provar.

 

 O dia que ela se foi 


Quantos medos agonizando o olhar
Adoeçendo órgãos, fortificando sintomas
Quantas dores da alma nos carcinomas
Esperanças em falso naufragando no mar

Quantas mãos entrelaçadas pedindo socorro
Quanta tristeza pairando no espaço
Pedindo talvez o calor de um abraço...
Quanta alquimia de ervas e unguentos
Quantos remédios, quantas receitas
e santos e rezas para aliviar
Suores úmidos para encharcar
e beijos inéditos para perdoar

Quantos passeios entre a morte e a vida
Em viagens únicas que só tinham ida
Quantas súplicas em vão, vocativos divinos
que suplicavam em uníssono,
Entre as baladas dos sinos
-é hora de rezar!

E Deus por mil vezes evocado,
Nenhuma só vez ouviu meu chamado, e
mandou-me a morte em seu lugar. 

E vi o beijo da morte não ser recusado
Queimando por dentro o que não sei explicar
Gritando em silêncio:  - Porque tem que ser assim?
Perguntando à vida porque tirou você de mim...

(Julho de 1996)



 

Encontrar-se diante à vitória requer primeiro tomar o risco;

Atravessar caminhos incertos, domar a ansiedade, afrontar o perigo.

Saber que no coração dos que tem coragem, Deus inspira a humildade;

Saber que no coração daqueles que sonham, à esperança jurou-se lealdade.


Vencer requer mais do que arriscar-se, pois da inconsequência é feita o risco;

É preciso acreditar em um sonho, buscar um ideal, desejar o objetivo.

Perder algumas batalhas, deixar ferir o orgulho, mas não dar-se por vencido.

É preciso equilibrar o olhar inocente e o gesto guerreiro, o ímpeto e o esperar.

Desafiar a sensatez de leis e palavras, talvez a alegria do acerto ou do erro o pesar.

Olhar-se no espelho e ver refletido seus medos, reconhecendo o inimigo;

É não ter medo de enfrentar. É não medir sentimentos, é amar demais.

É cruzar pontes que não dão em lugar nenhum e não olhar para trás.


Vencer requer receios e frustrações, incertezas nas encruzilhadas, domínio de emoções.

Saber que tardia pode ser a recompensa, pois não basta a vitória para recebê-la:

é preciso uma alma sublime, verdadeira!


Conter a inquietação do espírito e a impaciência;

Pois vencer não é somente um ato, é uma filosofia...

Grandes são os que a tomam como guia

(22.04.2003)


 ARS LONGA VITA BREVIS (Hipócrates)

O conhecimento é um grande paradoxo para nós da espécie humana. A mãe de todo o conhecimento é o incômodo descontentamento com a realidade. São os seres irrequietos que parem desejos de mudança, são as mentes férteis de ambições - materiais ou ideológicas - que dão à luz invenções e ideias que sem as quais, a humanidade nada seria.
Gênios, sejam eles artistas, cientistas, filósofos ou empreendedores, são sumariamente reduzidos a loucos e infames e não infrequentemente requer-se gerações antes de se reconhecer suas importâncias. São vidas duras, a dos questionadores, e não raro seus contemporâneos os julgam por imbecis por não abraçar a dádiva da normalidade e da ignorância.
Erasmus de Roterdã questiona em seu "Elogio da Loucura", porque o ser humano busca as ciências se a natureza em sua perfeição reina incólume entre abelhas e leões sem que estes precisem recorrer ao conhecimento para sua sobrevivência. Eis aqui o cerne da questão. Como espécie, não somos nada sem o imenso arcabouço de aprendizado que acumulamos até aqui. Já teríamos sido extintos desse planeta há muito tempo.
Aliás, do ponto de vista reprodutivo, ainda estamos programados para nos reproduzir como seres frágeis, sem cessar, como fazem os peixes dourados e os coelhos, pois o descasamento temporal entre nossa cognição e nossos órgão sexuais ainda é grande. Afirmação confusa? Um momento, que me explicarei.
Na natureza, existe uma lei comum a todas as espécies: perpetuar-se. Ocorre que há diferentes maneiras de fazê-lo e isso depende de vários fatores, principalmente extrínsecos, como a quantidade de predadores existentes para cada espécie.
No caso dos coelhos e dos peixinhos dourados, sabendo-se totalmente desprovidos de esperança de vida longa e à mercê das intempéries do mundo, resta reproduzirem-se ao máximo para gravarem seu DNA por mais tempo na Terra. Toda a energia deles é desprendida em reproduções numerosas e juvenis. Não resta muito tempo para pensar no amanhã.
Agora pense na baleia azul, no golfinho ou no tubarão tigre. Por quase não terem predadores, vivem mais e por isso podem dedicar seu desenvolvimento a outras características menos voltadas à sobrevivência em si e mais ligadas à cognição. Daí a inteligência destes bichos, ou resistência à doenças mortais na maioria dos animais (existem muitas exceções a essa lei geral, como os polvos, mas não importa para a reflexão desse texto). Esses animais demoram muitos anos para chegarem à maturidade sexual, tem poucos filhos e gestações demoradas.
Sob esse aspecto, estamos mais para coelhos: programados para começar a reproduzir a partir dos 10-11 anos até os 40 podendo ter um ou mais filhos a cada 12 meses nesse período (em caso de gestação múltipla). Ou seja, nossa lógica reprodutiva baseia-se no fato que somos frágeis, facilmente depredáveis, constantemente ameaçados por doenças e outros fatores exógenos que ameaçam nossa espécie.
No entanto, nosso cérebro e suas invenções foram ao longo de séculos, capaz de nos catapultar no ranking da longevidade. Basta lembrar que em 1900 a expectativa de vida era de 34 anos.
Hoje temos o melhor dos "dois mundos", o que nos deixa com uma imensa responsabilidade em relação à natureza e nosso legado. A responsabilidade da reprodução e do modo de viver da nossa espécie deveria estar mais evidente e inegável do que nunca.