Tem dias que doem mais. Tem dias que a ferida abre. Tem dias que transbordam a alma. Esses dias são aqueles que nos fazem mais vivos. São esses dias que a emoção toma conta. Começa assim, com uma lembrança vaga na memória, um vulto do passado passando pelo presente, um fantasma que insiste em nos visitar.
E o receio do medo que nos rodeia ao início dá lugar à tranquilidade. E a gente convida o medo para sentar. E abre uma cerveja, e bebemos juntos. Já não é mais medo. É uma profusão de lembranças, saudades, memórias, resgates. A gente coloca uma música, para evocar as lembranças mais de perto.
Ah, as lembranças...como podem as lembranças se atomizarem e se fazerem tão concretas onde antes não havia nada senão...memórias. No entanto, as memórias, tem cheiro, tem gosto, e se fecharmos os olhos, são até palpáveis.
Um momento perdido no tempo. O tempo linear, esse que conhecemos, não faz sentido no mundo das memórias. Os pensamentos vão e vem, distorcidos, ambíguos, doídos, saudosos...
Saudosa a alma chora. A alma se esvai pelos olhos. Nós chamamos isso de lágrimas. Água salgada, alma liquidificada. Às vezes eu acho que o mar é o choro de Deus...
A pior memória é a da morte. A morte é a memória que não tem mais direito de se materializar. Ela está condenada a ser sempre isso. Uma memória. E quando ela vem se fazer presente, é absurdamente forte. Porque ela tem medo de se fazer esquecida. Ela invade poros, narinas, ouvidos. Ela tem sons, transpira, inunda, cega. Diante dos olhos, nada mais se faz perpétuo além de seus espasmos de vida. As memórias de morte cegam os olhos e congelam o olhar.
Existe algo, no entanto, tão terrível quanto. São as memória de amor. Amor é a essência da alma. Nada mais justo que se sobreponha à ela. O amor é música. É o acalanto de se retornar a sua essência, por mais dolorido que seja esse amor. Sabe porque? Porque o amor é sagrado. Não importa se correspondido. Simplesmente porque é...amor.
A lembrança de amor é desprovida de angústias. A memória de amor é profunda, tão profunda como o âmago do meu ser. Ela não dói. O que dói é a sua ausência. Ou talvez o seu desejo de ter sido correspondida. O que dói não é o que ela é, mas o que ela poderia ter sido...
Ah, o medo, que se havia disfarçado e agora mostrou sua cara. Fica aí medo. Vamos abrir outra cerveja, antes que amanheça e você se vá. Deixa eu ver seus traços, encarar-te os olhos, aninhar-me em teu peito. Deixe-me estar em seus braços um pouco mais. Acostumar-me com tua presença.
Já nos perdemos mesmo...Agora o que importa...é que nos tornamos um só.
segunda-feira, 21 de novembro de 2016
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