quinta-feira, 29 de maio de 2008


Impassível, o coração já se recusava a sentir qualquer emoção. Resignava-se a ficar em seu canto, lambendo suas feridas. Não precisava de outras mais. Já havia suficientes.
Os olhos da menina não brilhavam mais. Eram olhos líquidos, esvaídos de tantas desesperanças. Eram olhos que já não queriam. Olhos de chuva, de tempestades intermináveis, de quem se cansou de nunca achar um horizonte.
Mãos de dor. Mágoa da vida, de calejar os dedos para só ver sofrer a alma. Não precisava mais. Mãos secas, áridas, como todo o resto do seu ser. Mãos que já não escreviam mais. Calaram as palavras no meio da sentença.
Alma de prisioneiro. De quem quer fugir sem saber para onde. Abriram-se os portões e já não se sabe se quer partir. Ficar é renegar os sonhos, partir é se enganar. Melhor não agir.
Melhor se matar, melhor fugir pra outra dimensão. Melhor esquecer a mediocridade dos seres humanos, melhor esquecer esse mundo sujo, melhor não ter mais sangue correndo nas veias, mas vento correndo na alma. Melhor é se libertar.
Olhar do alto e não ver mais nada, deixar a distância consumir os sentimentos até não existir mais nada. Olhar do alto e envolver-se no vácuo, olhar o vazio e esgotar a alma, até tudo tornar-se tão ínfimo, tão insignificante.
Quero ir embora desse mundo e de seus vícios. Quero deixar de ser estrangeira em meu próprio país. Quero que o mundo me absorva, me regurgite para outra dimensão, me exclua de seus limites e me envie para o país onde não se abre os olhos.
Onde só acordam os pensamentos, não mais o corpo, não mais o noticiário, não mais sóis, não mais luas.
Já saturei-me das poesias de Vinícius de Moraes. Já forcei demasiados risos, já não sei mais fingir. Quero ir para o país onde não se abre os olhos.

domingo, 25 de maio de 2008

Homenagem




Nos dias 15 e 24 de fevereiro, nasceram, respectivamente, Apoena Meireles e Denise Maldi, meus pais. Uma homenagem a saudade que tenho deles....

Não sei quando foi a última vez que te vi. Já se passou tanto tempo, ou talvez não se tenha passado tanto tempo assim.
Mas a minha saudade é tão maior que o tempo.
E desde quando se mede a saudade? Saudade é dessas coisas incomensuráveis, quase onipotente, que sufoca a alma e cala a garganta. Saudade não é sentimento, é estado de espírito, é o desejo do impossível, é desafiar o tempo e ainda assim, querer ganhar a batalha.
O tempo não é nada diante da minha saudade. Minha dor transpassa a temporalidade humana, cruza dimensões, rasga o peito e faz sangrar a alma. A minha dor está enterrada em mim tão profundamente que hoje é quase minha própria essência.
E eu choro. E todas essas lágrimas doídas, arrancadas de dentro, esscorrendo do âmago, embora líquidas, arranham e corroem meu corpo em todo o seu percurso.
O que mais dói em mim não é o que existe, mas o que ja não é mais. É a ausência. O vácuo, o vão, o intervalo, a inexistência. E como se o ausente fosse hoje o que há de mais presente na minha vida.
A saudade do que já se foi, do que já não é mais, mas principalmente do que poderia haver sido. Atemporal, a saudade faz fazer faltar os momentos que nem vieram a existir.
Meu olhar é melancólico. Meu olhar é impassível e só sucumbe à própria dor. Todo o resto lhe é um pouco, digamos assim, é insosso.
É que as vezes a alma se torna insípida. Mas tem que lutar, não é? Somos condicionados à luta, mesmo sem saber o porquê. Sem garantia de recompensa, sem certeza da glória, a luta. Não se pode esmorecer, pois não há derrota sem luta. Até entregar-se se faz após a luta interna de se convencer a fazê-lo. Já que a luta é inexorável, resta então saber pelo que lutar.
E apesar dos pesares, apesar das angústias, há algo lá dentro que não quer me deixar. É o velho espírito do guerreiro. Sâo essas imagens mal cronometradas, distorcidas e impregnadas no íntimo do meu ser que não me deixam abater. Dentro de mim, vive o espírito do guerreiro. E da grande guerreira que foi o grande amor da vida dele. E eu sigo vivendo, pelo amor dos meus pais.


Pseudônimos de mim


Regressarei ao início do caminho.
Não sei que deus, mas um deles quer assim.

No regresso ao início, quantos fins terei de viver…
Quantos sonhos eu suicidei, quantos impérios derrotei?
Abandonei histórias, improvisei recomeços,
Apaguei páginas inteiras e reescrevi minhas trajetórias.

Impulsivamente, é para o início que eu quero regressar…
Onde plantaram minhas raízes, onde é o meu lugar.
Quero me arrepender do que não foi feito, do engano rarefeito…
Pois os erros no meu peito, têm esperanças de voltar.

Quero o verde do meu olhar se confundindo com o da tua bandeira
O que arrancaram de mim, o que hoje aduba tua terra
O meu sangue, hoje é teu sangue
A minha origem que nas tuas entranhas se encerra
Quero estar de novo em teu ventre, preciso de ti para me amar…