Primeiro pensei em fazer-te poesia. Mas não estou certa que palavras consigam recitar em rimas o que o coração tenta expressar. Serei prosa, portanto: menos rígida e mais farta.
Quase tão extensa como nuvem no teu céu quando resolve te
molhar. Como teus marrons de matizes amazônicas, por onde se demora o teu
olhar.
Olhos que ora tendem ao negro das tuas águas, ora ao granadino
dos frutos que insistem em ti boiar. Olhos que se encerram ao entardecer. Quando
tuas cores confundem-se com o dia, que à minha revelia, insiste em se esconder.
Quando se põe o sol e se vai tua morenice, ou onde começa a escuridão do breu. O que foi
um brilho súbito, ou esperança que morreu.
Quando segundos se eternizam no calor de um abraço, ou quando
o sangue insiste em correr mais rápido do que as veias conseguem suportar.
É nesse momento que sua passividade vem incólume me acalmar.
Não haverá ontem, talvez nem mesmo amanhã. Não haverá arrependimentos porque
não houveram tropeços.
Sentimentos trôpegos não costumam ir muito além. Mas eu
costumo desafiar o tempo, e quem sabe, é porque me convém.
Mas um dia veio você e eu não soube como lidar. Confundiu-me
os sentimentos e as cores...me fez ansiar desejos e sabores. Não quero os que
já experimentei – quero os que tua boca revelar.
Quero gosto de fruta não mordida. Por mim descoberta, ainda
que proibida. Teu gosto arrebatador ou um adeus ameno, tua fertilidade ou teu
veneno. Apenas me deixe provar.



