sábado, 13 de setembro de 2025

 Conheço a cor do teu olhar,

não por cansar de vê-lo refletido,

mas por tanto imaginá-lo

Na espera das tuas ausências.


Olhares enfeitiçam:

cegam, paralisam,

interrompem o tempo,

e, quando se aquietam,

deixam cicatrizes de silêncio.


Como uma droga,

me abduzem ao êxtase delirante;

na amarga realidade,

sou prisioneira da tua abstinência.


Teu olhar resume minha existência:

dissolve-se em lágrimas,

morre na praia,

naufraga em si mesmo,

escorrendo na minha boca

o sal eterno do teu ser.

domingo, 25 de maio de 2025

 Ah, mãe!

Em breve serão 30 anos da sua partida. Trinta anos e ainda não sei como cheguei aqui. Como venci todos esses percalços, se é que os venci. Talvez todos eles ainda me persigam em sombras intermináveis.

Não serei mãe melhor. Nem melhor ser humano. Tarde demais  para chegar ao seu nível. Falhei. Mas te dei uma neta. E quando ela se maravilhou com Tutancamon aos 08 anos, você vibrou de outra dimensão: - Essa é a minha neta!

Mas não estamos aqui para falar da Pietra. É sobre nós. Sobre a compreensão e o perdão, que sempre chegam atrasados ou quando já é tarde demais. 

Como dizia Oscar Wilde,  tão citado por meu pai: "Os filhos começam por amar os pais; quando adultos, eles o julgam; e às vezes, os perdoam".

Nunca almejei ser nada próximo do que você foi - sempre me bastou ter-lhe como sina. 

E como sina hoje sei de tuas fraquezas e perdôo todas elas, porque as herdei . Não há demérito em nossas fraquezas: vergonha há em não reconhecê-las. 

Um ser tão complexo, que fazia tocar as Rapisódias Húngaras de Liszt e As Quatro Estações de Vivaldi para depois decidir qual delas os pássaros gostavam mais em manhãs domenicais, definitivamente não é um ser comum.

Aliás, Eclética era seu sobrenome. Fazendo jus à profissão, permeou todas as camadas, culturais,musicais e o que viesse. Me ensinou a jogar runas, frequentar a ubanda e respeitar o silêncio das igrejas .Talvez algo fácil para uma antropóloga - um quebra-cabeças para mim.

Obviamente me ensinou a amar outras culturas, e foi além. Me esinou sobre Pink Floyd e Geraldo Vandré. Aprendi a amar Mercedes Soza com 14 anos. A ler Fernando Pessoa, e a refletir sobre o florido mal de Charles Baudelaire .

Foram-se 30 anos. Sua imagem é um esboço, mas seus ensinamentos ficaram impregnados feito tatuagem. 

Você fez eu ficar amiga das suas amigas. E até hoje elas me escrevem. E se lembram de você através de mim. O amor perpetua-se por gerações, desde que saibamos alimentá-lo. Sua complexidade era demasiada para esse mundo. E eu? Era apenas. Sua filha.


terça-feira, 11 de março de 2025

 A verdade



A verdade é soberana. 

Ela é a verdadeira dona da vida. É dura e áspera, como quando perdemos o colágeno da nossa juventude que já não nos impregna mais.

Muitas vezes ignoramo-la, senão sempre que nos convém. 

E como é conveniente fingi-la ser qualquer coisa outra que não a inexorabilidade do seu ser.

Eu por exemplo, muitas vezes a maquiei – tão bela! Seus olhos sombrios entardeciam como flamboyants entranhados ao meio do céu anil.

A verdade é tirana, porque como a justiça, ela é cega. Ou melhor, ela é míope. 

Não tem lados, não tem fatos, tem sua certeza indelével a qual temos que acatar. Paciente tal qual um leão e sua presa, sabe que cedo ou tarde, a ela sucumbiremos. 

A verdade desnuda a alma – às vezes com um golpe certeiro, às vezes com a paciência de um touro tirando a morte para dançar um passo doble diante do seu algoz. 

No final estamos todos despidos diante dela. Nua, desesperadamente crua.

A verdade é fria como um prato de vingança. Degustamo-la depois que já se foram todos os convidados e a música parou de tocar. 

Seu sabor é acre, e seu aroma etéreo, como se fosse possível viver a antítese de dois mundos. Não. Ela arde enquanto embrião até virar rebento.

Depois ninguém segura mais. Fura pedras, quebra muros, instaura raízes, move moinhos. Mas como todo super-herói, tem sua criptonita.

E com toda a pompa e circunstância que lhe é devida, convido a Ilusão a subir no palco.

Linda, com sua pele de neve nunca tocada e olhos de querubim. Por pouco não lhe colocaram asas, embora ela seja tão furtiva quanto um beija-flor no mais comum dos jardins. Mas cabe somente aos loucos e sua loteria, viver de ilusão.

E eis que nos deparamos com a tardia e infalível dicotomia entre o que é e o que queremos que seja. Entre o que os olhos veem e o que o coração quer enxergar. 

Travem suas batalhas, façam suas apostas, senhores. Vermelho ilusão, preto verdade. Apostem suas fichas!

E seguimos como humanidade, apostando no que não nos é real. A verdade dói. 

Mas ela sempre ganha. Toma a banca, engole as fichas, corrói os olhos em lágrimas salgadas que embora as cremos estéreis, fazem nascer novas ilusões. 

Todas lindas criaturinhas, para que a verdade, incondicionalmente, venha decapitá-las depois.

sábado, 7 de dezembro de 2024

 Quando eu era criança, ainda pequena, em um tempo em que a tecnologia não passava de elucubrações analógicas, quebrei um termômetro - daqueles que medem a temperatura com a barra de mercúrio.  
Fiquei ali alguns minutos fascinada por aquelas bolinhas prateadas que esquivavam-se e moviam-se quando eu insistia em penetrá-las com a ponta de uma das partes do vidro espatifadas. Felizmente minha mãe se antecipou à tragédia e me arrancou para longe das minhas fascinantes bolinhas líquidas.  

Hoje quando pensei no mundo, essa imagem rememorou meus pensamentos. O mercúrio consegue ser mais denso do que o chumbo e ainda assim ter a maleabilidade das águas. Há algo mais furtivo, mais contraditório do que o mercúrio? O mercúrio sou eu. 

Lembro-me de uma vez que uma vizinha, que da minha vida não sabe da missa a metade, disse ter-me descrito em uma conversa sobre mim: - “Deve ser muito difícil ser a Tainá”. 

Como se fosse fácil ser alguém, esse alguém qualquer um que fosse. Mas alguns são de fato, mas difíceis de ser do que outros. São seres dicotômicos, onde antíteses proliferam e os sonhos não pasteurizam. São almas paradoxais, sem cura e sem esperança dessa doença irremediável que é a insensatez. 

Eu sempre peitei o destino. Aprenderam-me que era necessário se jogar, mergulhar de cabeça,  e não é uma metáfora: meu pai me ensinou a nadar atirando-me em um igarapé e, inimaginável a meus olhos – que agora sou mãe e jamais teria a mesma coragem – disse: “Nada, bate os braços, te vira”! 

Ao primeiro olhar ou leitura, parece um contrassenso, uma enorme maldade. Qual o quê, mais amor que nesse ato não há. A vida é luta renhida e nela só sobrevivem os fortes.  Resumo da “Canção do Tamoio”, de Gonçalves Dias, essa era uma das frases que ouvi tantas vezes de meu pai como se mantra fosse. Premonição do que o futuro me guardava ou intuição de pai, fato é que fui forjada a ferro para o fogo que minha vida viria a ser. 

Isso tudo porque ainda não falei de minha mãe. Aliás, em alguns dias serei quatro anos mais velha do que ela que faleceu aos 44 anos enquanto eu completarei 48. De alguma forma, fiquei com um crédito a mais aqui na Terra. Não que eu merecesse mais do que ela, absolutamente! Entretanto, cá estou. Se por mérito, castigo ou recompensa, só o tempo dirá.  

Mãe é refúgio, é colo, é amor sem expectativas. Mãe é uma das palavras mais antigas que existe, de raiz indo-europeia, origem da expressão daquela que origina a vida desde o “mother” inglês até o “mor” sueco, passando pelo russo “mat´”. Fato é que ser tão insubstituível fez-se intersecção etimológica entre línguas diversas e inimigas. Há algo de mais intrínseco e coletivo nesse planeta do que ser “mãe”?  

Mães amam seus filhos e isso é inexorável, posto que é sua essência. Mas algumas mães são mais intensas do que outras – não porque amam demais sua prole, mas justamente o contrário -por entender que esta é parte de um todo tão mais complexo e importante. É preciso tanta humildade e compreensão do mundo que raras são as mulheres capazes de entenderem que seus filhos são apenas uma peça do quebra-cabeças e que sem ela o cenário continua a existir.  Eu tive a sorte de ter uma mãe assim. 

Filhos não nos pertencem, objetos de nosso amor tampouco. Somos todos veículos, passagens fugazes por onde por onde faz moradia, o que chamamos de “amor”. Estamos aqui nessa busca eterna e etérea do que somos.  

Embora talvez a resposta não esteja no que somos, mas no que poderíamos haver sido. O que haveríamos tornado se não tivéssemos abandonado nossa essência. Ou nossas ilusões. Como descreveu Fernando Pessoa impecavelmente em seu poema “Tabacaria”: ‘Quando quis tirar a máscara, estava pegada à cara’. Em que momento a resignação incrustou-se a nossa essência? 

Eu sou nota musical, que atravessa os ouvidos para eternizar-se na pele em arrepios. Sou a pessoalidade beligerante da altercação em busca de justiça. O Yin e o Yang, o dualismo caótico que na corda bamba, encontra a junção entre o bêbado e o equilibrista.  

Sou o antagonismo de forma jamais vista. Sou a fruta mordida jogada ao pé da árvore, e que inexplicavelmente, a que frutificou. 

Se ainda estou aqui, agradeço as almas as quais a minha se dedicou. 

 

 

 

 

 

 

segunda-feira, 7 de outubro de 2024

De onde vim ou para onde eu vou

Se por lá cantem pássaros ou me encantem as sereias.

Onde descansou a realidade ou a ilusão pousou

Se por lá não sei quem és, ou que deveras serias...


Onde meço palavras e olhares

Sentimentos emaranham dor e rima

Esperam sua hora para fazer seus pares

Palavras estéreis em sua essência ínfima


Não importa onde eu vou

e sim de onde eu vim

Onde Deus descansou

É onde fiz o meu fim 
























domingo, 23 de junho de 2024

Eu

 É nos limites onde nos desafiamos. Quando o coração transborda pelo peito e invade veias e pensamentos.

É preciso instigar os limites e desafiar as fronteiras.  Não importa a profundidade do abismo ou a escala do sismo. Na beira do mar, onde as ondas acariciam os calcanhares, em algum momento é preciso enfrentar a arrebentação.

Não, nem tudo está perdido. 

Na esterilidade do mundo... 

Beira mar é raso, mas o pesar profundo

No salgar das lágrimas e oceanos... 

A dor de um dia, o passar dos anos. 

A espuma do mar que me invade 

Consome minhas pegadas e me pede lealdade.

Não me sucumbirei a ti nem aos teus. 

Não sou de idas e vindas, ironia das marés 

Já me arrebentei nos recifes, já valsei com Deus                                      

Naufraguei em feridas vivas e questionei quem és.

No deserto infecundo do profundo do teu ser.

Dei à luz à vida,ao inesperado, ao prazer.

Desafiei-te por mais de uma vez, todas vencidas.

Por um risco me tomaste, por destino sou temida.                    

terça-feira, 5 de setembro de 2023

  

 

E lá vamos nós novamente…peito cheio em turbilhão

Os anos trazem as rugas aos olhos, mas o espírito ainda segue inocente

O ímpeto que mora em meu coração, as dores que habitam minha mente

As lições aprendidas em vão, os erros que me permeiam, insistentemente

 

Eu, que sou tantas e em tantos átomos me fragmento

No meu âmago, onde regurgita um universo tal qual uma mãe e seu rebento

Em mim que se rompem desejos, e os remendos qual uma colcha de retalhos

Eu, que enalteço os meus pecados e me conforto em meus atos falhos

 

Eu que nunca digo não à vida, ainda que dela me esquive

Que do paradoxo do meu ser, faço do meu âmago a minha essência e antítese

Traduzo o rascunho da minha alma em palavras indecifráveis

Esboço meu corpo firme em contraste com meus desejos em rédeas frágeis

 

Sou a estrela caótica de Nietzsche em uma noite de constelações fugazes

As flores de Baudelaire quando não houver mais males

Sou a nau de Fernando Pessoa quando navegar não for mais preciso

A fidelidade de Vinícius quando seu soneto não for mais quisto

 

 

São Paulo, 05 de setembro de 2023