A verdade
A verdade é soberana.
Ela é a verdadeira dona da vida. É dura e áspera, como quando perdemos o colágeno da nossa juventude que já não nos impregna mais.
Muitas vezes ignoramo-la, senão sempre que nos convém.
E como é conveniente fingi-la ser qualquer coisa outra que não a inexorabilidade do seu ser.
Eu por exemplo, muitas vezes a maquiei – tão bela! Seus olhos sombrios entardeciam como flamboyants entranhados ao meio do céu anil.
A verdade é tirana, porque como a justiça, ela é cega. Ou melhor, ela é míope.
Não tem lados, não tem fatos, tem sua certeza indelével a qual temos que acatar. Paciente tal qual um leão e sua presa, sabe que cedo ou tarde, a ela sucumbiremos.
A verdade desnuda a alma – às vezes com um golpe certeiro, às vezes com a paciência de um touro tirando a morte para dançar um passo doble diante do seu algoz.
No final estamos todos despidos diante dela. Nua, desesperadamente crua.
A verdade é fria como um prato de vingança. Degustamo-la depois que já se foram todos os convidados e a música parou de tocar.
Seu sabor é acre, e seu aroma etéreo, como se fosse possível viver a antítese de dois mundos. Não. Ela arde enquanto embrião até virar rebento.
Depois ninguém segura mais. Fura pedras, quebra muros, instaura raízes, move moinhos. Mas como todo super-herói, tem sua criptonita.
E com toda a pompa e circunstância que lhe é devida, convido a Ilusão a subir no palco.
Linda, com sua pele de neve nunca tocada e olhos de querubim. Por pouco não lhe colocaram asas, embora ela seja tão furtiva quanto um beija-flor no mais comum dos jardins. Mas cabe somente aos loucos e sua loteria, viver de ilusão.
E eis que nos deparamos com a tardia e infalível dicotomia entre o que é e o que queremos que seja. Entre o que os olhos veem e o que o coração quer enxergar.
Travem suas batalhas, façam suas apostas, senhores. Vermelho ilusão, preto verdade. Apostem suas fichas!
E seguimos como humanidade, apostando no que não nos é real. A verdade dói.
Mas ela sempre ganha. Toma a banca, engole as fichas, corrói os olhos em lágrimas salgadas que embora as cremos estéreis, fazem nascer novas ilusões.
Todas lindas criaturinhas, para que a verdade, incondicionalmente, venha decapitá-las depois.