quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Homenagem a Gardel



A vida é assim, um tango. Não pode ser uma valsa, bela demais, metódica demais, demasiada leve e previsível. Walsen, deslizar,girar. Os que valsam na vida tem a sorte das burguesas de época, que se faziam cortejar por belos rapazes e expunham seus seios em decotes de cortes dos mais nobres tecidos.
Leves ao toque, frágeis e frias como a alvura de suas peles de porcelana. Opacas e belas, incólumes em suas redomas de vidro. Ah, sorte os que bailam a valsa pelos salões da vida...
O tango é...tenso. Um compasso que impregna a imaginação de imagens esfumaçadas, ambientes inóspitos, onde mulheres misteriosas se enroscam a homens idem. Um mistério de notas que fazem o coração palpitar mais rápido, buscando a próxima batida sem certeza do que se vai encontrar.
Suas notas entrelaçadas de dramaticidade e firmeza, tragédia e belezas ímpares. Os passos românticos evoluem em movimentos complexos e furtivos. Não se pode adivinhar qual será o próximo, pois o que cativa o espírito do expectador é justamente a sua improvisação.
A vida é assim, um tango. Há de se saber deixar levar pelos passos certeiros, sem antecipações nem anseios. Enxergar na melancolia da música uma beleza extraordinária e tocante. E dela fazer a mais bela das danças...
A palavra tango vem de Tangere¸tocar em latim. A vida é deixar-se tocar por essa profusão de sentimentos que ebulem dentro de quem tem a sensibilidade para escutar a emoção dentro da música. A vida é compassar dores e tragédias em passos sublimes e estonteantes. É deixar-se levar pelo destino, o mais exímio dos dançarinos. E em suas mãos, tornar uma dor brutal em melodias de amor...

SP, 23 de setembro de 2009

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Fernando e Denise

Deus não sabe mais qual das dores maior foi a que te sufocou;
Em qual das estradas ímpias a esperança te deixou;
Não foi um amor bastardo, não foi só um que te calou;
Foi a saliva do mar, espumando em suas marés, que um dia me contou...

Onde a tormenta de tantas tempestades contradiz pessoas e fernandos...
Navegar não é mais preciso...Viver? É impreciso...
Lá onde a vida é metafísica...onde a alma não é pequena, e até os pecados valeram a pena...

Perdoar calado não sossega o peito. Calar o peito não sossega a alma...
Tantos naufrágios feriram o mar, e o mar cicatrizou todos eles...
Nem rastro de ti, nem rastro no mar, mais um náufrago se foi e só sobrou a sua estória...
No meu peito tem um mar, e nele sou eu o náufrago, nele, fundo, a tua memória...

Que não quer mais calar. Quer chorar baixinho uma saudade eterna...
Quer sorrir timidamente sem querer se intrometer...
Quer ser de novo presente, quer abster-se do ausente...
Que quer na saudade, que pede uma só vez...viver a estória novamente.


Uma homenagem a minha mãe e a Fernando Pessoa, seu poeta preferido...


Taina Maldi Meireles
Dia das Maes, 2007