
A vida é assim, um tango. Não pode ser uma valsa, bela demais, metódica demais, demasiada leve e previsível. Walsen, deslizar,girar. Os que valsam na vida tem a sorte das burguesas de época, que se faziam cortejar por belos rapazes e expunham seus seios em decotes de cortes dos mais nobres tecidos.
Leves ao toque, frágeis e frias como a alvura de suas peles de porcelana. Opacas e belas, incólumes em suas redomas de vidro. Ah, sorte os que bailam a valsa pelos salões da vida...
O tango é...tenso. Um compasso que impregna a imaginação de imagens esfumaçadas, ambientes inóspitos, onde mulheres misteriosas se enroscam a homens idem. Um mistério de notas que fazem o coração palpitar mais rápido, buscando a próxima batida sem certeza do que se vai encontrar.
Suas notas entrelaçadas de dramaticidade e firmeza, tragédia e belezas ímpares. Os passos românticos evoluem em movimentos complexos e furtivos. Não se pode adivinhar qual será o próximo, pois o que cativa o espírito do expectador é justamente a sua improvisação.
A vida é assim, um tango. Há de se saber deixar levar pelos passos certeiros, sem antecipações nem anseios. Enxergar na melancolia da música uma beleza extraordinária e tocante. E dela fazer a mais bela das danças...
A palavra tango vem de Tangere¸tocar em latim. A vida é deixar-se tocar por essa profusão de sentimentos que ebulem dentro de quem tem a sensibilidade para escutar a emoção dentro da música. A vida é compassar dores e tragédias em passos sublimes e estonteantes. É deixar-se levar pelo destino, o mais exímio dos dançarinos. E em suas mãos, tornar uma dor brutal em melodias de amor...
SP, 23 de setembro de 2009