sábado, 7 de dezembro de 2024

 Quando eu era criança, ainda pequena, em um tempo em que a tecnologia não passava de elucubrações analógicas, quebrei um termômetro - daqueles que medem a temperatura com a barra de mercúrio.  
Fiquei ali alguns minutos fascinada por aquelas bolinhas prateadas que esquivavam-se e moviam-se quando eu insistia em penetrá-las com a ponta de uma das partes do vidro espatifadas. Felizmente minha mãe se antecipou à tragédia e me arrancou para longe das minhas fascinantes bolinhas líquidas.  

Hoje quando pensei no mundo, essa imagem rememorou meus pensamentos. O mercúrio consegue ser mais denso do que o chumbo e ainda assim ter a maleabilidade das águas. Há algo mais furtivo, mais contraditório do que o mercúrio? O mercúrio sou eu. 

Lembro-me de uma vez que uma vizinha, que da minha vida não sabe da missa a metade, disse ter-me descrito em uma conversa sobre mim: - “Deve ser muito difícil ser a Tainá”. 

Como se fosse fácil ser alguém, esse alguém qualquer um que fosse. Mas alguns são de fato, mas difíceis de ser do que outros. São seres dicotômicos, onde antíteses proliferam e os sonhos não pasteurizam. São almas paradoxais, sem cura e sem esperança dessa doença irremediável que é a insensatez. 

Eu sempre peitei o destino. Aprenderam-me que era necessário se jogar, mergulhar de cabeça,  e não é uma metáfora: meu pai me ensinou a nadar atirando-me em um igarapé e, inimaginável a meus olhos – que agora sou mãe e jamais teria a mesma coragem – disse: “Nada, bate os braços, te vira”! 

Ao primeiro olhar ou leitura, parece um contrassenso, uma enorme maldade. Qual o quê, mais amor que nesse ato não há. A vida é luta renhida e nela só sobrevivem os fortes.  Resumo da “Canção do Tamoio”, de Gonçalves Dias, essa era uma das frases que ouvi tantas vezes de meu pai como se mantra fosse. Premonição do que o futuro me guardava ou intuição de pai, fato é que fui forjada a ferro para o fogo que minha vida viria a ser. 

Isso tudo porque ainda não falei de minha mãe. Aliás, em alguns dias serei quatro anos mais velha do que ela que faleceu aos 44 anos enquanto eu completarei 48. De alguma forma, fiquei com um crédito a mais aqui na Terra. Não que eu merecesse mais do que ela, absolutamente! Entretanto, cá estou. Se por mérito, castigo ou recompensa, só o tempo dirá.  

Mãe é refúgio, é colo, é amor sem expectativas. Mãe é uma das palavras mais antigas que existe, de raiz indo-europeia, origem da expressão daquela que origina a vida desde o “mother” inglês até o “mor” sueco, passando pelo russo “mat´”. Fato é que ser tão insubstituível fez-se intersecção etimológica entre línguas diversas e inimigas. Há algo de mais intrínseco e coletivo nesse planeta do que ser “mãe”?  

Mães amam seus filhos e isso é inexorável, posto que é sua essência. Mas algumas mães são mais intensas do que outras – não porque amam demais sua prole, mas justamente o contrário -por entender que esta é parte de um todo tão mais complexo e importante. É preciso tanta humildade e compreensão do mundo que raras são as mulheres capazes de entenderem que seus filhos são apenas uma peça do quebra-cabeças e que sem ela o cenário continua a existir.  Eu tive a sorte de ter uma mãe assim. 

Filhos não nos pertencem, objetos de nosso amor tampouco. Somos todos veículos, passagens fugazes por onde por onde faz moradia, o que chamamos de “amor”. Estamos aqui nessa busca eterna e etérea do que somos.  

Embora talvez a resposta não esteja no que somos, mas no que poderíamos haver sido. O que haveríamos tornado se não tivéssemos abandonado nossa essência. Ou nossas ilusões. Como descreveu Fernando Pessoa impecavelmente em seu poema “Tabacaria”: ‘Quando quis tirar a máscara, estava pegada à cara’. Em que momento a resignação incrustou-se a nossa essência? 

Eu sou nota musical, que atravessa os ouvidos para eternizar-se na pele em arrepios. Sou a pessoalidade beligerante da altercação em busca de justiça. O Yin e o Yang, o dualismo caótico que na corda bamba, encontra a junção entre o bêbado e o equilibrista.  

Sou o antagonismo de forma jamais vista. Sou a fruta mordida jogada ao pé da árvore, e que inexplicavelmente, a que frutificou. 

Se ainda estou aqui, agradeço as almas as quais a minha se dedicou. 

 

 

 

 

 

 

Nenhum comentário: