terça-feira, 11 de março de 2025

 A verdade



A verdade é soberana. 

Ela é a verdadeira dona da vida. É dura e áspera, como quando perdemos o colágeno da nossa juventude que já não nos impregna mais.

Muitas vezes ignoramo-la, senão sempre que nos convém. 

E como é conveniente fingi-la ser qualquer coisa outra que não a inexorabilidade do seu ser.

Eu por exemplo, muitas vezes a maquiei – tão bela! Seus olhos sombrios entardeciam como flamboyants entranhados ao meio do céu anil.

A verdade é tirana, porque como a justiça, ela é cega. Ou melhor, ela é míope. 

Não tem lados, não tem fatos, tem sua certeza indelével a qual temos que acatar. Paciente tal qual um leão e sua presa, sabe que cedo ou tarde, a ela sucumbiremos. 

A verdade desnuda a alma – às vezes com um golpe certeiro, às vezes com a paciência de um touro tirando a morte para dançar um passo doble diante do seu algoz. 

No final estamos todos despidos diante dela. Nua, desesperadamente crua.

A verdade é fria como um prato de vingança. Degustamo-la depois que já se foram todos os convidados e a música parou de tocar. 

Seu sabor é acre, e seu aroma etéreo, como se fosse possível viver a antítese de dois mundos. Não. Ela arde enquanto embrião até virar rebento.

Depois ninguém segura mais. Fura pedras, quebra muros, instaura raízes, move moinhos. Mas como todo super-herói, tem sua criptonita.

E com toda a pompa e circunstância que lhe é devida, convido a Ilusão a subir no palco.

Linda, com sua pele de neve nunca tocada e olhos de querubim. Por pouco não lhe colocaram asas, embora ela seja tão furtiva quanto um beija-flor no mais comum dos jardins. Mas cabe somente aos loucos e sua loteria, viver de ilusão.

E eis que nos deparamos com a tardia e infalível dicotomia entre o que é e o que queremos que seja. Entre o que os olhos veem e o que o coração quer enxergar. 

Travem suas batalhas, façam suas apostas, senhores. Vermelho ilusão, preto verdade. Apostem suas fichas!

E seguimos como humanidade, apostando no que não nos é real. A verdade dói. 

Mas ela sempre ganha. Toma a banca, engole as fichas, corrói os olhos em lágrimas salgadas que embora as cremos estéreis, fazem nascer novas ilusões. 

Todas lindas criaturinhas, para que a verdade, incondicionalmente, venha decapitá-las depois.

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