Ah, mãe!
Em breve serão 30 anos da sua partida. Trinta anos e ainda não sei como cheguei aqui. Como venci todos esses percalços, se é que os venci. Talvez todos eles ainda me persigam em sombras intermináveis.
Não serei mãe melhor. Nem melhor ser humano. Tarde demais para chegar ao seu nível. Falhei. Mas te dei uma neta. E quando ela se maravilhou com Tutancamon aos 08 anos, você vibrou de outra dimensão: - Essa é a minha neta!
Mas não estamos aqui para falar da Pietra. É sobre nós. Sobre a compreensão e o perdão, que sempre chegam atrasados ou quando já é tarde demais.
Como dizia Oscar Wilde, tão citado por meu pai: "Os filhos começam por amar os pais; quando adultos, eles o julgam; e às vezes, os perdoam".
Nunca almejei ser nada próximo do que você foi - sempre me bastou ter-lhe como sina.
E como sina hoje sei de tuas fraquezas e perdôo todas elas, porque as herdei . Não há demérito em nossas fraquezas: vergonha há em não reconhecê-las.
Um ser tão complexo, que fazia tocar as Rapisódias Húngaras de Liszt e As Quatro Estações de Vivaldi para depois decidir qual delas os pássaros gostavam mais em manhãs domenicais, definitivamente não é um ser comum.
Aliás, Eclética era seu sobrenome. Fazendo jus à profissão, permeou todas as camadas, culturais,musicais e o que viesse. Me ensinou a jogar runas, frequentar a ubanda e respeitar o silêncio das igrejas .Talvez algo fácil para uma antropóloga - um quebra-cabeças para mim.
Obviamente me ensinou a amar outras culturas, e foi além. Me esinou sobre Pink Floyd e Geraldo Vandré. Aprendi a amar Mercedes Soza com 14 anos. A ler Fernando Pessoa, e a refletir sobre o florido mal de Charles Baudelaire .
Foram-se 30 anos. Sua imagem é um esboço, mas seus ensinamentos ficaram impregnados feito tatuagem.
Você fez eu ficar amiga das suas amigas. E até hoje elas me escrevem. E se lembram de você através de mim. O amor perpetua-se por gerações, desde que saibamos alimentá-lo. Sua complexidade era demasiada para esse mundo. E eu? Era apenas. Sua filha.
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