domingo, 11 de setembro de 2022


 ARS LONGA VITA BREVIS (Hipócrates)

O conhecimento é um grande paradoxo para nós da espécie humana. A mãe de todo o conhecimento é o incômodo descontentamento com a realidade. São os seres irrequietos que parem desejos de mudança, são as mentes férteis de ambições - materiais ou ideológicas - que dão à luz invenções e ideias que sem as quais, a humanidade nada seria.
Gênios, sejam eles artistas, cientistas, filósofos ou empreendedores, são sumariamente reduzidos a loucos e infames e não infrequentemente requer-se gerações antes de se reconhecer suas importâncias. São vidas duras, a dos questionadores, e não raro seus contemporâneos os julgam por imbecis por não abraçar a dádiva da normalidade e da ignorância.
Erasmus de Roterdã questiona em seu "Elogio da Loucura", porque o ser humano busca as ciências se a natureza em sua perfeição reina incólume entre abelhas e leões sem que estes precisem recorrer ao conhecimento para sua sobrevivência. Eis aqui o cerne da questão. Como espécie, não somos nada sem o imenso arcabouço de aprendizado que acumulamos até aqui. Já teríamos sido extintos desse planeta há muito tempo.
Aliás, do ponto de vista reprodutivo, ainda estamos programados para nos reproduzir como seres frágeis, sem cessar, como fazem os peixes dourados e os coelhos, pois o descasamento temporal entre nossa cognição e nossos órgão sexuais ainda é grande. Afirmação confusa? Um momento, que me explicarei.
Na natureza, existe uma lei comum a todas as espécies: perpetuar-se. Ocorre que há diferentes maneiras de fazê-lo e isso depende de vários fatores, principalmente extrínsecos, como a quantidade de predadores existentes para cada espécie.
No caso dos coelhos e dos peixinhos dourados, sabendo-se totalmente desprovidos de esperança de vida longa e à mercê das intempéries do mundo, resta reproduzirem-se ao máximo para gravarem seu DNA por mais tempo na Terra. Toda a energia deles é desprendida em reproduções numerosas e juvenis. Não resta muito tempo para pensar no amanhã.
Agora pense na baleia azul, no golfinho ou no tubarão tigre. Por quase não terem predadores, vivem mais e por isso podem dedicar seu desenvolvimento a outras características menos voltadas à sobrevivência em si e mais ligadas à cognição. Daí a inteligência destes bichos, ou resistência à doenças mortais na maioria dos animais (existem muitas exceções a essa lei geral, como os polvos, mas não importa para a reflexão desse texto). Esses animais demoram muitos anos para chegarem à maturidade sexual, tem poucos filhos e gestações demoradas.
Sob esse aspecto, estamos mais para coelhos: programados para começar a reproduzir a partir dos 10-11 anos até os 40 podendo ter um ou mais filhos a cada 12 meses nesse período (em caso de gestação múltipla). Ou seja, nossa lógica reprodutiva baseia-se no fato que somos frágeis, facilmente depredáveis, constantemente ameaçados por doenças e outros fatores exógenos que ameaçam nossa espécie.
No entanto, nosso cérebro e suas invenções foram ao longo de séculos, capaz de nos catapultar no ranking da longevidade. Basta lembrar que em 1900 a expectativa de vida era de 34 anos.
Hoje temos o melhor dos "dois mundos", o que nos deixa com uma imensa responsabilidade em relação à natureza e nosso legado. A responsabilidade da reprodução e do modo de viver da nossa espécie deveria estar mais evidente e inegável do que nunca.

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